O "PODEROSO LIVRO DE SÃO CIPRIANO"

 

O "poderoso livro" que não tem poder algum

Vez ou outra, algumas pessoas ficam preocupadas com o suposto “poderoso livro de São Cipriano” encontrado em cenas de crimes bárbaros. Eis a razão de dedicarmos o presente artigo ao assunto.

De início, notemos que o São Cipriano conhecido pelos católicos é o bispo que governou a Igreja de Cartago, no Norte da África, de 249 a 258. Morreu mártir e nos legou muitos escritos de valor teológico, mas que nada têm a ver com ocultismo.

Daí a questão: onde, então, teve origem a história de Cipriano, mago convertido à fé católica? – Teve origem em Antioquia da Síria, no início do século IV. Aí, Prailio, um diácono, pregava, em público, o Evangelho. Converteu a muitos pagãos, incluindo uma jovem de nome Justa que se propôs a frequentar assiduamente a igreja e permanecer virgem para sempre. Ora, um rapaz chamado Aglaídas se apaixonou loucamente por ela, mas não foi correspondido. Junto com seus amigos tentou, um dia, agarrá-la e levá-la à força consigo. Todavia, algumas mulheres que a acompanhavam puseram-se a gritar e os vizinhos vieram em socorro da recém-convertida, salvando-a do moço tresloucado de paixão. Não satisfeito, o jovem procurou um mago poderoso de nome Cipriano. Oferecer-lhe-ia uma boa soma em dinheiro, se, com suas magias, o ocultista vencesse a resistência de Justa.

Começa, então, uma saga um tanto engraçada. O mago evocou um demônio e este lhe revelou que deveria jogar veneno em volta da casa da jovem virgem. Ela, porém, ao rezar, percebeu a artimanha maligna e, com orações e o sinal da cruz, repeliu a força do maligno. Cipriano chamou outro demônio, que também foi derrotado. Vencido o segundo, restava ao bruxo, conforme a lenda, evocar o próprio príncipe dos demônios. Este, disfarçado de uma jovem atraente, fingiria querer imitar a virgindade de Justa e lhe faria perguntas capciosas sobre a Sagrada Escritura, confrontando Gn 1,28 e 1Cor 7,6. 25-40. A jovem virgem se abalou, mas, outra vez, com orações e o sinal da cruz, pôs o senhor das trevas para correr. Cipriano, então, vendo que o demônio não tinha poder algum, foi à igreja, pediu o batismo, tornou-se católico e, depois, morreu mártir.

Exposta, em suma, a história, resta perguntar: Que veracidade tem tudo isso e qual a importância do “poderoso livro de São Cipriano”? – Responderemos em três tópicos.

1) Dom Estêvão Bettencourt, OSB, afamado teólogo, diz que “tais narrações são, pelos historiadores modernos, unanimemente tidas como lendárias” (Sobre o Ocultismo. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2016, p. 203). Muitos nomes arrolados nos escritos como sendo de Antioquia nunca existiram na época e nos cargos indicados. Também não há na mesma cidade turca nem em Roma os respectivos túmulos de Cipriano e Justa. O apreço por ambos começou com narrações populares espúrias, mas que muito valorizavam a figura da virgem invencível pelo poder de Deus e do mago convertido. Eis o motivo pelo qual os nomes de Cipriano e Justa constam no Martirológio Romano.

2) Sobre a obra em foco, afirma Dom Estêvão: “Se algum efeito extraordinário ocorre por ocasião da leitura do ‘Livro Poderoso de São Cipriano’ isto se deve unicamente ao poder da sugestão de quem acredita que tal livro produz efeitos portentosos, pois se predispõe a ‘vê-los’, ‘experimentá-los’ ou mesmo ‘produzi-los’...” (idem, p. 205).

3) O dito Livro de São Cipriano não tem poder algum. Sua difusão se deve à sede do fantástico, fictício e maravilhoso desligado da sã razão que habita a mente de algumas pessoas. Mais: no plano da fé católica, o fiel que declara crer em Deus Pai todo-poderoso, mas tem medo do referido livro ou de outra crendice qualquer, reza apenas da boca para fora. Afinal, já São Paulo é enfático nesse ponto: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8,31).

Portanto, muita fé em Deus, bom-senso e coragem sempre!

 

Vanderlei de Lima é graduado em Filosofia (PUC-Campinas) com extensão em Parapsicologia (CLAP/FEG) e certificado em estudos sobre o Ocultismo pela Escola Mater Ecclesiae.

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